MORDE ESSA BOLACHA zine

"melhor do que matar gaivotas com um tijolo"

[entrevista] O CERCO: “O Cerco representa o cerco das forças da natureza ao definhante humano, resultado de um abuso violento e criminoso por parte da destruidora humanidade”

Nascidos das raízes criadas e deixadas por dois outros projectos diferentes, a banda O CERCO tem vindo a fazer crescer a sua própria história e a traçar o seu próprio caminho, seja através da sua música impregnada de camadas de significados e percursos, seja através das suas presenças por todos os palcos e público que os tem acolhido desde que este projecto teve início! Mas existe mais nesta história e os nossos companheiros da Metal Horde Zine foram atrás de todas as respostas…

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[MH] Olá pessoal, como vai a vida? Primeira demo na rua, muitos concertos, parecem estar numa boa fase, certo??

[O CERCO] Certo, depois de termos tocado na eliminatória do Rock On do Side B, seguiram-se vários concertos importantes na vida de uma banda, como o Sardinha de Ferro, a abertura de Inquisition no RCA, Degredo Metal Fest, etc…
Pode-se dizer que começamos logo bem com este projecto, pois tivemos uma boa aderência e um bom retorno, tanto de malta amiga como pessoal que ouviu a primeira vez…e esse primeiro impacto é sempre importante, pois é um grande incentivo para continuar… e para a frente é que é o caminho!

[MH] Vamos começar com a base de tudo… Como é que surgiu a ideia d’O CERCO? Penso que alguns (se não todos) estão ligados também aos VRT 139, por isso, quando é que tiveram a ideia de começar este novo projecto?

[O CERCO] O Cerco surgiu da junção dos elementos de 2 bandas. VRT139 e FOSSO, mesmo em termos de sonoridade, queríamos ter um projecto em conjunto e formámos uma banda nova, com um novo conceito.
Embora a formação original “ao vivo” de VRT139 já fosse constituída por nós os três, Daniel D, Rui M e Sérgio L., sabíamos também que mais cedo ou mais tarde tínhamos que criar esta “junção”… Além de debatermos os mesmos temas e ideias, quisemos eventualmente expandir mais o nosso “universo e atmosfera” musical…   Criar um outro ambiente conceptual… De certa forma era quase inevitável.

[MH] Já agora porquê o nome O CERCO? O que é que ele representa para vocês? É apenas um nome? Como é que vos surgiu essa escolha?

[O CERCO] O Cerco representa o cerco das forças da natureza ao definhante humano, resultado de um abuso violento e criminoso por parte da destruidora humanidade… a guerra começou… a natureza vai ripostar de forma cataclísmica os abusos sofridos.
É a punição da Grande Mãe. O Homem desconectou-se dela e vai pagar por isso… Vai ser castigado pela negligência que comete. Ela torna-se, por assim dizer, na Némesis do Homem. Infelizmente grande parte de nós pensa que a Terra nos pertence, que é nossa por direito, mas de facto nós é que pertencemos a Ela e esquecemo-nos disso… Esquecemo-nos dessa ligação primordial… mas não por muito tempo,  porque vem ai uma cura devastadora. Vem ai “A Purga”…

[MH] Vocês são um trio com dois guitarristas e um baterista, nunca ponderaram ter um baixista? Ou um de vocês tomar conta das quatro cordas? Sentem que assim conseguem transmitir tudo aquilo que querem sem ter de adicionar mais um membro?

[O CERCO] A verdade é que as duas guitarras têm de existir para criar as harmonias/desarmonias, e como as duas estão afinadas e equalizadas em tons tão graves, talvez um baixo não vá acrescentar nada ao som, e se calhar introduzirá mais confusão… ou não…
Claro que também é sempre importante um baixo. As frequências graves ajudam sempre a fazer um “chão” sonoro, principalmente ao vivo… simplesmente, para já, não sentimos falta dele. Mas claro que não descartamos a hipótese de mais tarde podermos adicionar um baixista.

[MH] Como é que nasce um tema vosso? É trabalho de um ou todos contribuem para o que ouvimos no final?

[O CERCO] Normalmente, o riff nasce no guitarrista, depois no ensaio discute-se como fica melhor e a música é construída… o costume.
Por vezes a ideia já vem pré-concebida por um de nós, pois cada musica é como se fosse uma “sequência ou cena” de uma banda-sonora de um filme no qual o álbum se insere.. Debatemos essa ideia e criamos essa ambiência, quase sempre apocalíptica e desoladora..

o cerco 01

[MH] O vosso primeiro trabalho dá pelo nome de “O Homem Esmorece… A Natureza Prevalece”, o que se encontra por detrás desse título? Somos nós humanos destinados a destruir tudo o que nos rodeia, até não haver nada mais para destruir senão nós próprios?

[O CERCO] Nós colocamos o foco do lado nas forças da natureza, portanto, o Homem realmente está a fazer isso, mas o nosso conceito é a forma de a Natureza contrapor esse ataque. Nem que seja, não fazendo nada, e o próprio Homem se destruir, e a Natureza persistir, como é, imutável e eterna.
Portanto, o nome em si já diz quase tudo. A Natureza vai sempre prevalecer. O Homem sabe que é efémero e que eventualmente vai morrer… talvez por isso mesmo, dentro dessa sua frustração e não aceitação dessa “passagem”, se destrua a si próprio e desrespeite o que lhe rodeia. Essa sua “doença” corrói-o por dentro e acaba por se auto-destruir. O Homem é o seu próprio inimigo. Talvez, para alguns haja esperança e consiga evoluir verdadeiramente, mas provavelmente a Grande Mãe já não tem nem perdão, nem misericórdia para as atrocidades da Humanidade. No entanto, quem sabe, talvez um dia consiga atingir a Salvação… fazendo a Verdadeira União com Ela…

[MH] A nível de letras o que queres exprimir com O CERCO? Este trabalho aparece dividido em duas partes, podem-nos explicar em que consiste cada uma delas?

[O CERCO] A composição conceptual de CERCO resulta sempre numa história contada em trilogias… Havendo, portanto, sempre 3 faixas sobre um mesmo assunto… Neste caso a primeira trilogia (1 a aurora de fogo 2 a aurora de gelo 3 a queda) e a segunda trilogia (1 dos escombros 2 parasitas 3 a devastação) falam sempre do tema fenómenos naturais e o decifrar desses fenómenos como um ataque às atrocidades humanas.
Neste caso, na primeira trilogia começa com um cenário de uma “limpeza” atroz, em que imaginamos como se surgisse um nascer do sol avassalador, tipo uma erupção solar de “raios de fogo” que “purgam a alma (da Terra) traída e esquecida”, um “rogo de fogo” seguido por uma “cura de gelo”, tipo cenário de uma era glaciar, em que “o velho império” (do homem) morre e “das cinzas o novo renasce”, o “reino celeste”.. Portanto, desta “Ira” de fogo e gelo, ao Homem só resta uma opção… a sua “queda” .
Na segunda trilogia, restam “escombros” causados pela “fúria do Pai (Cosmos/Deus/Zeus, etc..) e da Mãe (Terra, Natureza, Gaia, etc..)” e dos quais ainda restam “parasitas”, esses “filhos ingratos que infestam o ventre”, mas que são dizimados pela grande “devastação” final… Basicamente é este o nosso “cenário”…

[MH] A tape foi lançada pela Signal Rex, como é que chegaram ao contacto com eles? Já tiveram oportunidade de ouvir/ver o resultado final? Ficaram satisfeitos?

[O CERCO] Já tínhamos trabalhado com a pessoa da Signal Rex no passado com VRT139, na altura com outro selo. Vimos o resultado final e, como foi feito com o nosso acompanhamento constante, ficámos muito satisfeitos.
Temos que salientar o facto de que gravámos esta demo, literalmente, ao vivo, excepto a voz que  foi gravada posteriormente… Na altura convidámos um amigo nosso, o produtor e músico Octávio Fernandes, para vir até aos nossos aposentos e captar um ensaio nosso para ver como é que a “coisa” ficava, tipo um teste…
Ele levou um gravador de oito pistas (6 para a bateria e 2 para as guitarras) e basicamente começamos a tocar e gravou-se as músicas todas seguidas… e numa tarde, em poucas horas ficámos com o “live set” gravado. Fomos ate ao estúdio dele e após ouvirmos a captação percebemos que podíamos ter ali uma demo bastante razoável em termos de qualidade, visto as condições em que foi feito. Uns dias depois voltou-se ao estúdio e gravou-se a voz na mesma “linha” como a captação instrumental, ou seja, tudo seguido… O Octávio depois fez a mistura e masterização e acabámos por ficar com um trabalho final bastante “orgânico e genuíno”… O pessoal da Signal Rex ouviu e curtiu e decidiu editar a tape… ao qual ficámos obviamente bastante agradecidos.

[MH] Musicalmente já vi comparações a pesos pesados como Wolves in the Throne Room ou Altar of Plagues, como é que se sentem com este tipo de associações? Sendo o Black Metal provavelmente a vossa maior inspiração, a verdade é que se houve muito mais influências no vosso som. Que bandas serviram como palete de sons?

[O CERCO] Não sabemos dizer, à muito tempo que não ouvimos WITTR nem AoP, mas a palete, se houver, é muito mais abrangente, digamos, como se vai verificar em lançamentos futuros.
Seja como for, são sempre boas bandas a que nos comparam. Mas é sempre inevitável haver comparações musicais a outras bandas. A verdade é que são inúmeras as que ouvimos e que nos influenciaram ao longo dos anos, desde as bandas que ouvíamos em putos, em plena rebeldia da malta amiga, tal como as internacionais, como deve ser com muitas outras… Dentro dessa palete há vários tipos de metal, tal como se sabe, e vão sempre surgindo cada vez mais variantes dentro do estilo no qual, cremos nós, fazemos parte, pois não ficamos inteiramente confinados ao BM, procurando sempre fundir mais os estilos e assim criar novas ambiências, sempre sem “forçar” claro, pois para nós tem que fazer sentido o som que fazemos… Portanto, basicamente todas as bandas, independentemente do estilo, se gostamos, de certeza que nos influenciam… muito ou pouco…

[MH] Vocês são de um local onde as escarpas, bem como as praias no Inverno, podem servir como base de inspiração. É esse o caso com a vossa música? Até que ponto as condições naturais podem influenciar o som de uma banda? Por exemplo, seriam capazes as bandas dos países nórdicos de soar tão frost and grim se vivessem num país solarengo?

[O CERCO] Concordamos plenamente, toda esta natureza em redor e o contacto diário com essa natureza, contribui a 100% para o nosso som. O facto de ensaiarmos no topo de um monte também… tudo influencia o nosso conceito da luta titânica da natureza contra o homem, porque a vemos e sentimos todos os dias. E sobre isso compomos.
O Ambiente onde se cresce e vive influencia sempre o criador, seja no que for que ele crie… Posto isto, achamos que muito dificilmente as bandas nórdicas pudessem criar um som mais tipo reggae ou samba… e vice-versa… Mas claro que o podem fazer, obviamente.

o cerco 02

[MH] Vocês têm sido bastante requisitados para tocar ao vivo, chegando mesmo a abrir o concerto em Lisboa com os Inquisition. Como é que correu esse concerto? Foi diferente de todos os outros concertos que deram até hoje ou foi apenas mais um?

[O CERCO] Dada a importância que damos a Inquisition, não foi igual porque gostamos da banda há muito e tivemos o prazer de privar com eles, portanto, foi muito especial! No entanto, gostamos de igual forma de tocar em todos os outros concertos e criar os ambientes sonoros e paisagens cataclísmicas sobre o nosso conceito.
Mas sim, pensamos que foi um bom gig e que nos deu uma boa projecção, apesar de muito pessoal ficar surpreendido com o facto de não aparentarmos muito de acordo com o som… Os Inquisition são gajos muito fixes e fica aqui o nosso bem-haja para eles.

[MH] Ao vivo vocês vão um pouco diferentes da estética visual das bandas de Black Metal, não usando qualquer tipo de corpse-paint, nem outros artefactos. Esta simplicidade visual é planeada ou apenas um acaso?

[O CERCO] Será um acaso planeado? Sendo que o som também sai um pouco do habitual BM assim como o conceito, tem lógica que o visual também seja distinto… no entanto, andamos assim no dia-a-dia por isso, é a nossa imagem normal.
A verdade também é que nós não queremos que liguem muito à tão dita “imagem”… mas sim ao som, que é o que interessa. Claro que olhamos sempre para os elementos em cima do palco e curtimos sempre a malta que faz as “war paints”, mas para nós não deixa de ser na mesma um Ritual, com ou sem corpse-paint… Desde que sejamos genuínos, isso é que importa. Mas, vamos querer fazer outras coisas, em termos cénicos… Aguardai.

[MH] Vocês são uma das revelações do underground nacional. Como é que vês esse mesmo underground? Está de boa saúde ou nem por isso? A existência de cada vez mais sítios onde tocar tais como o Side B, Metalpoint ou o RCA, tem ajudado a cena nacional a crescer com qualidade?

[O CERCO] Do lado das pessoas que querem fazer coisas está bom e as coisas acontecem… do lado do público está fraco, devido a novas gerações deficientes e globalizadas em estilo. Cabe-nos a nós persistir e continuar…
Mas ainda bem que há por aí pessoal que ainda acredita e sente que as bandas “tugas” são boas a fazer música, seja em que estilo for (e obrigado ao Carlos do Side B por nos ter ajudado a projectar essa coisa que é O CERCO)! A verdade é que estamos rodeados e conhecemos tantas bandas boas que não têm o devido “crédito”, tal como se sabe, mas também num meio cada vez mais sobrelotado é difícil sempre sobressair… Mas tem que se batalhar sempre e, acima de tudo, gostar de tocar… pois não é por dinheiro de certeza que a malta continua a “exorcisar os demónios interiores”… pelo menos as do underground nacional claro… Seja como for, acho que a malta apoia-se e tenta sempre continuar.

[MH] Hoje em dia o que passa no vosso stereo? Coisas novas ou trabalhos mais antigos? Como é que se tornaram adeptos destas sonoridades mais obscuras?

[O CERCO] Coisas novas e antigas, mas acima de tudo originais. Metal e tudo o resto. Muitas nacionais e também internacionais. De todos os estilos e sonoridades… Pensamos que devemos ser eclécticos, abrangentes e variados, seja o que for que ouçamos… E essa sonoridade obscura vem dos tempos de putos, da revolta contra o sistema que sabemos que nos está sempre a foder e a “formatar” para sermos uns belos “robots ou zombies” (e já andam por aí muitos…). Mas a malta sabe…

[MH] Ok, estamos a chegar ao fim… Deixem-nos com as vossas últimas palavras, por agora, e vemo-nos por aí…

[O CERCO] A mensagem que queremos deixar é que se preparem, pois Ela vem aí, e vai vencer… Respeito e Verdade.

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This entry was posted on Janeiro 4, 2015 by in ENTREVISTAS, METAL HORDE ZINE, VIDEOS and tagged , , , , , , , , , .

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